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Dona Solange

Resiliência é a palavra que define dona Solange. Mulher preta, acreana, ela saiu da sua cidade natal muito cedo. Vários foram os rompantes que formaram esta pessoa que Ananda Puchta admira. “Minha mãe é uma mulher que conseguiu alçar vôos inimagináveis quando se olha para sua trajetória”, diz.

Solange teve uma infância difícil. A segunda filha mais velha de oito irmãos precisou amadurecer rapidamente. Era ela quem tomava a frente das coisas. Trabalhava bastante, até porque ser mulher era ter várias tarefas domésticas delegadas. Aos 16 anos, veio viver em Curitiba e teve uma desconexão com sua família. O conforto materno e paterno não fazia parte da sua história. Este, talvez, seja um dos pontos de virada da vida de Solange. Uma mulher, nascida em um lugar amazônico, que foi se inserindo na cultura curitibana em plena década de 1970 para continuar seus estudos através do CEFET (Centro Federal de Educação Tecnológica),  tendo que, de certa forma, se moldar para caber naquele ambiente. 

A maneira resiliente com que a mãe seguiu e passou pelas situações de preconceito é o que faz Ananda querer contar sua história. Na época, Solange não tinha consciência do que é ser uma mulher preta nessa sociedade, mas vindo para Curitiba, sendo barrada nos lugares, o preconceito com a cor da sua pele ficou evidente. “É o saber dessas situações  que minha mãe passou que me faz ser assim, um tanto quanto indignada na vida”, comenta Ananda. Ela relata que é nesses momentos que encontra a mulher forte que é sua mãe, pois não se imagina passando pelos mesmos episódios. 

A vida a tornou um pouco calada e dura. Mãe de três filhos, Solange pontuava aqui e ali algumas coisas para conscientizá-los, mostrando que é importante dar valor ao que se tem, pois na sua infância ela não teve as mesmas coisas que agora pode dar aos seus filhos. Contava a eles as histórias e situações que passou na sua infância para apresentá-los a outras realidades. Sempre falou muito abertamente sobre suas origens e sua cultura, mas sempre guardou e absorveu muito desses espaços, como o machismo estrutural que veio arraigado nela, através da família e do casamento. 

Se reinventar, desconstruir e reconstruir faz parte da trilha de Solange. Fez sua carreira como professora, criou três filhos, mudou de cidade, se libertou do resto para poder olhar para si e para suas questões. Apreciando a vida como quem aprecia a música, uma de suas paixões, que, aliás, é compartilhada entre mãe e filha.


Mônica Ferreira
Estudante de Jornalismo na UFPR

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