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Será que hoje vai dar pra brincar?

Sabrina Maria sabe muito bem como gosta de ser apresentada: uma mulher negra, gorda e lésbica. Nem cinco minutinhos de conversa e ela já me tirou boas risadas. Desafiando a sociedade, ocupa sim os espaços que quer e deve ocupar. Já diz “sim, eu faço teologia. Uma mulher lésbica dentro de uma Universidade católica fazendo esse curso.” E não para por aí, Sabrina alia suas vivências. Religião e homossexualidade é o que ela estuda, surpreendendo as pessoas so seu redor.

“Na idade delas a gente ficava: será que hoje vai dar pra brincar ou vai ter tiroteio?”

Pra quê perguntas? Sabrina vai logo nos contando tudo, sua história envolve. Foi uma criança muito intuitiva, ela já sabia que ia cuidar de tudo e todos. Nascida e criada na comunidade Vila Torres, se orgulha de toda sua trajetória. Quando criança, brincar na rua com as outras crianças era a sua diversão. Relata que ficava sempre muito atenta, pois vivia uma realidade em meio a conflitos e violências. Já viu vidas serem tiradas, sua casa ser invadida, sentia medo da polícia, só queria que um dia isso pudesse mudar. E, hoje, demonstra a alegria que sente ao ver que suas sobrinhas tem a liberdade de brincar na rua da Vila, “na idade delas a gente ficava: será que hoje vai dar pra brincar ou vai ter tiroteio?”. Parar a brincadeira pra correr dos tiros fazia parte do seu cotidiano.  

Sabrina relata que demorou para se reconhecer enquanto uma mulher negra e pra entender o que é uma mulher negra dentro da periferia. Agora, como educadora, quer que seus alunos se reconheçam, entendam sua identidade e sua potência. Teimou com ela mesma que não queria ser educadora, mas teve um momento que não deu mais e foi o chamado pra ela. Ter esperança, acreditar faz parte do seu dia-a-dia e isso que ela quer passar, além de todo o conhecimento de uma mulher que se movimenta, pois é um desafio para a sociedade em que vivemos.  

Algo que a enche de alegria e que faz brilhar os olhos é falar da sua mãe Sebastiana, ou como ela mesmo a chama carinhosamente “Nenão”. Bricalhona que só já me alertou que se eu fosse conversar com dona Sebastiana ia ficar até tarde pois “ô mulher que tem vivência”. Sempre está pela Vila para ver sua mãe “Se eu pudesse construir um barraco, um castelo dentro da Vila, eu não queria ter saído de lá não. Como diz, o negro pode ter tudo mas você nunca vai tirar dele a favela.”


Mônica Ferreira
Estudante de Jornalismo na UFPR

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