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Quando cuidar de si é cuidar do outro: saúde mental em tempos de pandemia

Dores e amores

Inúmeras são as questões afloradas nessa pandemia em nossas mentes e emoções. Cada uma de nós, com suas diferentes subjetividades estamos manifestando diferentes dores e amores. Tenho a impressão de que cada uma está lidando com aquilo que estava mais querendo aparecer em nossas personalidades, mas que por vários motivos estava um pouco desencorajado.

Sem romantizar a pandemia e muito menos dizer que foram bons tempos, quero dizer que o que era para aparecer ou gritar ou perpetuar, apareceu e com isso possivelmente alguns aprendizados.
Apareceu assustando, apareceu repentino e com força. Muitas de nós, como em um processo das fases do luto (pois estamos vivendo muitas perdas), demoramos a entender e muitas vezes acabamos tropeçando repentinamente em fases como a negação, a barganha ou a raiva, em um círculo cruel e doloroso.

A sombra

Para quem está sabendo aproveitar (na medida do possível), acredito que esses últimos tempos, foram momentos em que mais tivemos oportunidades para nos haver com nós mesmas e com nossas sombras.
Escolho aqui, agora, falar um pouco sobre essa sombra chamada solidão. Sentir-se só, solitude, solidão, isolamento, vazio. Como queiram. São diferentes significados, que se manifestam com diferentes sentimentos, e que pelo menos para mim, foi e está sendo muito presente nessa pandemia.
Me pergunto se antes de tudo isso eu também estava me sentindo só dessa maneira. E se por acaso, antes de tudo isso, não sentia tanto assim, pois, de alguma forma, conseguia extravasar a solidão, tapando alguns buracos com alguns “tampões” que de repente me dei conta, durante essa experiência, que esses “tampões” eram um pouco efêmeros e que muitas vezes traziam mais vazios do que preenchiam.

O medo de olhar pra dentro

No poema Quando estou só reconheço, Fernando Pessoa fala que ao estarmos sós, podemos nos sentir livres, mas tristes, e que nessa liberdade de ir e vir, na verdade, nada existe. Ou existe, só algumas de nós é que não estamos acostumadas a olhar e lidar com esse vazio.
E às vezes é preciso esse olhar profundo dentro do vazio, dentro dessa sombra para nos lembrarmos quem somos nós e o que viemos fazer por aqui. Retomarmos o que começamos ou decidir que não queremos mais a vida de antes. Ou simplesmente ser e estar aqui no presente que é esse momento.

O mais especial dessas horas que estamos vivendo (de novo, sem romantizar pandemia e nem todo sofrimento que ela está causando) é que estamos vivendo esse grande olhar e “pausa no tempo” juntas. Pois estamos todas passando por isso. Todos estamos enfrentando o mesmo problema, com diferentes perspectivas.

Mergulho profundo

Então acho que o lance é esse, é darmos chance para esses sentimentos que estão vindo com tudo e nos dar essa possibilidade de estar só, de vermos o buraco fundo e o vazio talvez sempre presente, mas nunca olhado e simplesmente nos darmos a chance de sentir.
Estamos diante de um convite, convite esse que nos chama para olhar para dentro, permitir esse mergulho profundo que é se conhecer e dentro de talvez alguns caldos, entendermos que o outro está ali, sendo também um ser como nós e que como nós, também precisa de cuidado e de amor. Mesmo de longe.

É uma possibilidade de expandir as opções de estarmos com nós mesmas nessa hora de dor. Sem deixar de viver o comum, porque o comum existe, seja do outro lado da tela ou do outro lado da sala, e sim, precisamos do outro. Inclusive acho que nunca falamos e precisamos exercer tanto nossa empatia como nesse momento.

Convite ao prazer

O mundo nos convida a desacelerar e nos dar de cara com nosso eu. E acredito fielmente, depois de 7 meses vivendo essa experiência que esse encontro ou re-encontro pode aflorar nosso ser criativo, nosso ser único, nosso ser movimento, preguiçoso, estagnado e independente do que aflorar, está aqui e está sendo intenso.

Não existe receita de bolo para tudo isso, existe cada uma buscando seu caminho para que consiga elaborar toda dor e desconforto de agora. Achar maneiras novas de extravasar a energia acumulada pode ser uma opção, investir em autoconhecimento e reconhecer suas fraquezas e qualidades pode ser outra. Identificar prazeres, momentos catárticos mesmo com distanciamento social, mesmo dentro de casa e longe das pessoas que amamos pode trazer descobertas lindas.
E tomara que toda essa experiência seja de um pouco prazerosa, porque no final buscamos isso também né?


Fernanda Dal Pizzol Moro @fernandamoro
Psicóloga clínica e atriz

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