Crônicas, contos e poemas

O ENSAIO

Elena olhava seu reflexo no espelho enquanto esfregava os olhos com força. Os movimentos deixavam marcas vermelhas em toda a extensão dos seus olhos e bochechas. Ela pegou sua escova de dentes, devagar, como quem havia acabado de acordar. Colocou a pasta dental na escova e levantou o braço na altura da boca. Fez movimentos circulares com a escova, para alcançar todos os dentes. Depois de exatos 2 minutos, cuspiu o conteúdo do creme dental e se olhou no espelho novamente.

Seu rosto já tinha marcas profundas da idade. Os 40 anos a castigava um pouco e ela lembrava de todos os dias que saiu de casa sem passar protetor solar. Eu deveria ter passado protetor todos os dias dos meus 30 aos 40, pensava enquanto penteava os cabelos castanhos. Eles estavam mais curtos que o normal e ela tinha certeza que diriam que seu cabelo de Joãozinho a deixavam muito sapatão.

Ela se perdeu em seus pensamentos e apenas voltou a realidade quando seu celular despertou. Eram 9 horas da manhã e ela estava atrasada para sua sessão de fotos com uma cliente nova. Precisava organizar sua câmera e todos os aparatos de luz e cenário em menos de 15 minutos. Ela deixou a escova de cabelo na pia e correu para conseguir fazer tudo dentro do tempo restante.

O relógio marcava 9 horas e exatos 13 minutos.

Elena estava 13 minutos atrasada e sua cliente já estava no hall de entrada do prédio de seu estúdio de fotografia. Ela não possuía recepcionista, por achar que conseguiria recepcionar todos bem melhor que qualquer outra pessoa. Nesse momento, ela sentiu falta de uma pessoa com essa função para ajudá-la.

Diana havia chegado no prédio da Avenida 24, o tal prédio novo que todos ouviram falar quando foi inaugurado, às 8 horas e 54 minutos. Ela odiava se atrasar para qualquer compromisso e por isso acordava sempre 2 horas antes do horário combinado. Também odiava o atraso das outras pessoas.

Ela tocou a campainha do apartamento 704 algumas vezes e não obteve resposta. Bom, ainda não está no horário, então tudo bem, pensou enquanto interfonava para a portaria. Ela conversou com o porteiro e pediu que abrisse a porta, para que ela pudesse esperar dentro do prédio e não fora, ainda mais com o vento cortante de 13 graus. O homem relutou, mas aceitou. Afinal, seria desumano deixar uma donzela passando frio em plena segunda-feira, não seria?

Elena abriu a porta do prédio com tanta força que o porteiro e Diana se entreolharam assustados, como se conversassem sobre quem estava chegando. Ela deu longos passos e chegou perto de Diana sem hesitar.

— Oi, oi. Diana, certo? Eu sou a Elena, mil perdões pelo atraso. — Diana sussurrou um curto tudo bem enquanto, involuntariamente, avaliava a postura de Elena. As duas se olharam por alguns segundos, como dois animais selvagens que se encontram pela primeira vez, tentando, cada uma, identificar os pontos positivos e negativos na outra.

— Vamos subir? Já estou com tudo certinho aqui e prometo que não vamos demorar. — Elena caminhou em direção ao elevador, apertou o botão e sorriu para Diana enquanto aguardava. Nesse momento, Diana percebeu que Elena tinha algumas sardas no nariz, que se moviam quando ela sorria. Ela a observou por mais alguns segundos e pensou que talvez fossem marcas de sol.

Elena percebeu os olhares em seu rosto e logo desviou seus olhos da moça. Ela sempre se sentia desconfortável com confrontos visuais. A porta do elevador se abre e ambas dão um passo para frente. Os passos foram tão sincronizados, que seus corpos se encostam sem querer e elas ficam presas entre cada lateral da porta. Elena olha para Diana rapidamente e sussurra um rápido opa. Ela dá um passo para trás e faz um sinal para que Diana entre antes dela. Nesse momento, Elena percebe que os olhos de Diana são mais azuis do que ela havia percebido e que seu rosto começar a adquirir tonalidades de vermelho, como se estivesse envergonhada com algo. Elena também parece desconfortável e desvia seu olhar para baixo.

Elas finalmente entram no elevador, uma depois da outra e Elena aperta o botão para o sétimo andar. O silêncio naquele espaço de 6 metros quadrados é ensurdecedor e Elena logo pensa que se a viagem demorar mais que 5 minutos ela surtará, sem sombra de dúvidas.

Por sua sorte, a viagem dura exatos 25 segundos.

A porta se abre e ela espera que Diana saia antes. Diana, por sua vez, espera que Elena saia. Novamente, elas se entreolham e um clima estranho parece pairar no ar. Pela primeira vez no dia, Elena acha isso tudo um tanto quanto engraçado e solta uma risada espontânea. Seus músculos do ombro, que estavam extremamente contraídos, se soltam nesse momento e Diana percebe como aquela mulher, de seus 35 anos, pensava ela, fica iluminada ao sorrir. Você deveria sorrir mais, Elena, conclui enquanto toma a frente e sai do elevador. Elas caminham novamente em silêncio até a porta do apartamento 704. Elena coloca a chave no trinco da porta e a abre vagarosamente. Elas entram.

Enquanto Diana observa a decoração, Elena corre para abrir as cortinas e preparar as luzes e o cenário. Diana era escritora e havia produzido um livro sobre amores livres, que falava muito sobre poligamia e relacionamentos monogâmicos. O que era curioso, para uma jovem de 23 anos, que jurava nunca ter amado ninguém, apesar de ter namorado 3 pessoas ao mesmo tempo no ano anterior. Eu posso falar de relacionamentos, mas não necessariamente de amor, João, comentou com um de seus ex-namorados quando ele a telefonou. Ele não acreditava que alguém poderia escrever sobre algo que não viveu, mas Diana era a prova viva de que isso era possível. Apesar, de que em sua concepção, seu livro era sobre relações humanas e não sobre o amor em si. Ele já discordava disso tudo.
Elena organizou as luzes, colocou um banco a cerca de 2 metros do seu tripé da câmera e retirou seu celular do bolso.

— Se importa de ouvirmos alguma coisa? Acho que assim o processo fica mais leve para você e até para mim. — Diana estava focada em uma pintura de 3 metros, de duas mulheres se olhando e se virou rapidamente para Elena, que pareceu observar aquela cena em câmera lenta. — Inclusive, escolhe alguma coisa você.

Elena entregou seu celular para Diana e suas mãos se encostaram quando o objeto era passado de uma para outra. Diana se perguntou se a mão de Elena era sempre tão fria e logo focou seus olhos no aparelho telefônico. Elena, por sua vez, não conseguia parar de olhar para o maxilar da jovem e como a iluminação do local deixava seu rosto mais marcante e favorecia os contornos dos olhos, do nariz e principalmente da boca. Seus olhos ficaram parados cerca de 30 segundos na boca de Diana. Tempo o suficiente para fazê-la imaginar se ela estava usando algum tipo de batom e qual seria o gosto dele.

— Gostei dessas músicas, vou colocar essa lista aqui. — Começou a tocar uma música popular brasileira, cantada por uma mulher numa melodia perfeita, que fundia o som do violão a voz dela e tudo parecia uma única coisa. Diana sorriu, um sorriso tímido e nostálgico, de quem reconheceu um arranjo que gostava e devolveu o celular para Elena.

Havia uma câmera apontada para o rosto de Diana e Elena disparou várias vezes sem que ela percebesse. Quando percebeu que já estava sendo fotografada, o sorriso de Diana se desfez e seu olhar adquiriu uma tensão de quem não sabia o que fazia.

Em silêncio, Elena se aproximou dela. Elas estavam a menos de 40 centímetros de distância e Elena esticou seu braço esquerdo em direção ao rosto de Diana. Com certa leveza, ela passou a ponta dos dedos nos fios de cabelo castanhos que estavam na frente do olho direito de Diana, que por sua vez, suspirou e sentiu cada batimento de seu coração pulsar em todo seu corpo, principalmente nas extremidades do rosto que entraram em contato com a pele de Elena.

— Desculpa, não consegui evitar…

— Elena retirou cada fio de forma lenta, sincronizada com as batidas da música, como se estivesse se deliciando de cada segundo daquele momento. Diana sentia o rosto se aquecer e a respiração ficar mais ofegante com cada fio retirado. — Essa luz está iluminando seu rosto, consigo ver cada detalhe dos seus olhos, do seu nariz. Elena terminou, mas ficou mais alguns segundos na frente de Diana. Novamente, o silêncio se instaurava entre elas. Mas agora, era um silêncio denso, encorpado, quase uma entidade divina, que estava sendo adorado e desejado por ambas.

— Podemos tirar as outras fotos? — A voz de Diana rompeu o silêncio e serviu como uma quebra de encanto para Elena, que piscou forte três vezes e assentiu com a cabeça. Ela sorriu, e se afastou da jovem. Realmente, Elena, você deveria sorrir muito mais, pensou Diana enquanto caminhava até o banco posicionado ao seu lado.
Ela se sentou e cruzou as pernas, colocando as mãos em cima da perna direita. Elena posicionou sua câmera no tripé e disparou algumas vezes.

— Sobre o que é seu livro? — Perguntou entre um clique e outro. — Antes de responder, vira o rosto para direita, levemente, olhando por cima do meu ombro esquerdo. — Diana obedeceu e tentou ficar rígida por alguns segundos, até que ouviu cerca de cinco cliques. Relaxou os ombros e sorriu levemente.

— Sobre relacionamentos. Escrevi alguns contos sobre poliamor, não monogamia e até sobre a própria monogamia também. — Elena disparou mais três vezes e olho para Diana. Agora não a olhava através da câmera, mas por cima dela.

— Apenas sobre relacionamentos ou sobre amor também? — Diana ouviu a pergunta enquanto desfazia a cruzada de pernas. Ela logo pensou em João e suspirou um pouco.

— Eu não sei se tenho capacidade de escrever sobre amor hoje. Não sei se eu já encontrei isso em algum momento. — Elena assentiu com a cabeça e tentou analisar todas as expressões que o rosto de Diana lançava para ela. Aquela mulher parecia um grande mistério e ela estava ansiosa para desvendá-lo por completo.

Elena retirou mais três fotos e desligou a câmera.

Diana percebeu que elas haviam terminado e se levantou devagar, procurando seus pertences com os olhos. Ela caminhou até o sofá, onde sua bolsa estava e logo sentiu uma respiração perto de seu ombro direito, olhou para trás e Elena estava com uma mochila nas costas, com todos seus aparatos de fotografia guardados.

— E você tem algum compromisso agora? Adoraria ouvir você falando sobre os inúmeros relacionamentos humanos enquanto tomamos um café. — Diana não sorriu, mas seus olhos estavam imersos em tons de curiosidade, misturados com desejo e interesse. Já Elena, sorria.

— Você deveria sorrir mais, Elena, você fica linda sorrindo.

 

Carolina Jordão @carolbs_
Estudante de cinema e escritora nas horas vagas

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