É a vez delas

Morrer e viver, repete

Tudo começa com um tapa na cara.

E então ainda muito jovem, aos solavancos que a vida dá, Cristina Reis revela seu destino inesperado, desafiador, mas também bonito. Sim, bonito, porque quando a beleza nasce da tristeza, faz-se muito mais bela. E belo também é seu sorriso fácil, sincero. Hoje, aos 46 anos, lésbica, em plena meia-idade, Cristina, nos presenteia com seu seu despojamento, sua facilidade de ser direta, sua beleza pura, sem ou com pouquíssima maquiagem, e claro, sua camisa pólo.

Com essa camisa é que ela conta sua história de vida turbulenta, que repete a de tantas outras ao longo desse Brasilzão. A violência doméstica que marca a memória, a vida e a história de mulheres que replicam o casamento dos pais, sem um parâmetro melhor e, muitas vezes, com a promessa solene de que não irão repetir o que passaram em casa. A diferença aqui é que Cris encontra a porta que buscou a vida inteira – sem saber – aos 36 anos. Tudo faz sentido: o sentimento permanente de não pertencer, a angústia de se “vestir de menininha” quando criança, época em que queria ser caminhoneira como o pai, o seu Nestor; a sexualidade revela uma vida nova, a possibilidade de ser quem realmente é.

“Eu criei dois meninos, duas meninas e a Cristina”, foi o que Dona Alice, sua mãe, lhe disse há dez anos, quando contou para a família que é lésbica. Dizem que as mães sempre sabem os segredos que nem os filhos ainda contaram para si mesmos.

Casada aos 19 anos, após ter perdido a chamada para a  prova do vestibular no mesmo ano, a mulher sorridente havia se apaixonado pelo garçom de Laranjeiras do Sul-SP, onde vivia desde criança. Daqui em diante a história é conhecida: o lado violento de seu ex-marido começou a aparecer cada vez mais, na medida em que ela buscava novos espaços, novas conquistas. A primeira agressão foi um tapa no seu rosto. A última, infringida pela força de um carro.

Inteligente, com tino para negócios e para a ação, Cris, hoje uma das fundadoras do Coletivo Cássia e idealizadora do “Dedos de Conversa” – voltado para a sexualidade da mulher lésbica –  encontrava alegria no trabalho que realizava com o companheiro na época. Ambos ambiciosos, sabiam separar a vida profissional da vida pessoal, e assim seguiam: mais parceiros de negócios do que de vida.

Paz de espírito, define a pedagoga, que na vida adulta conseguiu encontrar diversas paixões, contemplada pelo seu destino que abocanhou e assoprou. Sua liberdade veio anos depois, entre ameaças e cumplicidades com o ex-marido, do qual se compadecia. Após ter sofrido traições e ido tirar satisfação foi arrastada pela caminhonete em que ele se encontrava e largada numa poça – tudo isso presenciado pelo filho mais novo do casal, Breno.

“Antes ele do que você. Você tem dois filhos para criar”, essa frase dita pelo seu pai marcou o dia da morte do seu ex-marido. Ali, uma nova vida nasceu. Depois de anos separados, sua vida amorosa era castrada pelas constantes ameaças do homem. No dia da sua morte, ele almoçou na casa de Cris em uma de suas aproximações. Horas depois, em sua viagem de carro, sofreu um acidente fatal. Dois filhos, imóvel, uma representação comercial e uma amante restaram. A pedagoga, camaleoa, lutadora ferrenha, reinventou-se. Saiu-se bem nos negócios, a vida prosperou, encontros amorosos começaram a acontecer. Uma normalidade desejada veio.

Em um desses encontros, tudo fez sentido: ao participar de um ménage à trois, ela descobriu a maciez da mulher. Viciou-se na suavidade e na intensidade feminina, utilizou compulsivamente dessa droga até que encontrou a segurança em um bate-papo on-line. Mesmo morando em cidades diferentes e em pleno Carnaval, as duas encontraram-se uma semana depois.

A sagacidade e o grande coração de Cris parece ser de família: seus filhos estavam cientes do amor da mãe. Quando confrontado sobre o assunto, Bruno, o mais velho só respondeu um “te amo, eu já sabia”.

 

Cristina Reis
Professora Pedagoga e Co-fundadora do Coletivo Cássia

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