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Tempos de incerteza também são tempos de quebra

Estrutura social de gênero é o nome chique dado ao sistema desigual no qual a gente vive. Um complexo de relações, hierarquias, poderes, ideologias, hegemonias, processos e burocracias. Um combo de regras traduzidas por meio de cultura, conhecimento e leis que esteiam o status-quo, o qual procura manter seguros os interesses de uma minoria. E  esta, por sua vez – e por óbvio, os retroprotege com unhas e dentes. Sabemos como é sua carinha: patriarcal, cisheteronormativa e capitalista.

Em outras palavras, é aquela (contra) lógica que a gente não sabia explicar muito bem quando era criança, ao ver nosso irmão sentar-se no sofá com nosso pai enquanto seguíamos para a cozinha para ajudar nossa mãe com a louça. Ou a premissa não provada – porém universalmente aceita – de que homens são mais racionais e mulheres são mais cuidadosas. É a doutrina enraizada em nosso subconsciente de que o espaço público pertence ao gênero masculino (branco, hetero, cis), enquanto a esfera familiar é responsabilidade do gênero feminino. Uma fé que se alimenta da ideia da menina que lava a louça e se torna delicada. E se nutre a partir de um emaranhado binário de emoções: amor e ódio, elogio e constrangimento. Nessa teia, se materializa a opressão, violência e desigualdade, em suas mais profundas interseccionalidades.

Aí nos perguntamos: há como quebrar essa estrutura? Se os livros que lemos, as teorias que aprendemos, as filosofias acerca da nossa existência, foram ditadas pelas pessoas de sempre? Se os nossos corpos são controlados e nossos gêneros sufocados pelos mesmos sujeitos? Se nossas histórias foram contadas pela perspectiva de outrem, se o que sabemos sobre protagonismo é o que vem desse outro? E se todo esse conhecimento, esse poder, essa herança, servem a um sistema que a nós não serve?

Bom, depois de ouvir as letras de Mulamba, os discursos de Marielle, de aprender com bell hooks e testemunhar o crescimento dos projetos das nossas sapatãs; depois das conquistas árduas do movimento indígena, de observar a forma como a luta para reverter essa conjuntura vem ganhando força, eu diria que a resposta é sim. Muito sim. Há como romper com ela. Tempos de incerteza como o que enfrentamos também são tempos de quebra. É hora de trocarmos as velhas referências europeias e estadunidenses por coisas nossas, brasileiras. De substituir as desgastadas convicções da Avenida Paulista pelos ancestrais conhecimentos indígenas. De ouvir as manas da periferia, que há séculos gritam. Mais: é hora de correr atrás de megafones, de usarmos nossos privilégios para fazer coro a essas vozes. Ecoá-las em todos os espaços.

Estrutura social de gênero é o nome chique dado ao resultado do mutismo milenar imposto a quem, a partir dessa ordem, sangra. E no timbre único de cada voz silenciada está o porrete para romper as correntes e triturar as unhas e os dentes do status-quo. É tempo de ouvir, e também é tempo de falar. De entender que todas nós temos algo importante a dizer, e que precisamos ser ouvidas. Você, que é mulher, negra, indígena, trans, lésbica, bissexual. Que é da favela, que é mãe, que é de comunidade tradicional. Você que não se adequa aos padrões de beleza – e nem quer. Chegou a hora de empunhar sua voz. O Cássia é um coletivo de corações que nasceu para transformar vergonha em poder, solidão e medo em pertencimento, silêncio em voz. Por isso, esse espaço te pertence. Então, para seguirmos juntas, conta pra gente: o que diz seu coração?

 

Marina Sperafico
Relações Internacionais no Coletivo Cássia
Mestranda em Gênero, Desenvolvimento e Globalização pela LSE
Bolsista Chevening

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