Saindo do Armário | Tempo, cicatrizes e mãe

Ilustração por @ninazambiassi

Famílias várias vezes são uma questão gigantesca na hora da gente sair do armário. São nossa base de amor e morremos de medo de frustrar as pessoas que nos amam. Tem vezes que dão todo o apoio do mundo, tem vezes que viram as costas, de qualquer forma seguimos. Tentando lidar da melhor forma possível com as ações e reações que tanto nos afetam.

Outro ponto crucial somos nós mesmas que por vezes tentamos fingir sentimentos e desejos para nos adequar ao que esperam de nós. Não importa o quanto tentemos nos enganar, quando conseguimos nos desprender dos padrões e finalmente sermos quem somos a liberdade é enorme.

TEMPO, CICATRIZES E MÃE

Eu tinha 15 anos, ela tinha 18. Por ela, eu tinha uma idolatria absurda, não tinha ninguém como ela. Eu sonhava com ela, tinha ciúmes dela, queria estar perto dela. Ela não era só minha melhor amiga, era muito mais. Minha mãe veio até mim, perguntou se eu não estava apaixonada por ela. Um filme passou pela minha cabeça, o protagonista? Meu pai e seu discurso de que “o mundo gay é promíscuo, muitas drogas”, me recusei a acreditar que fazia parte disso. “Meu pai tem razão, esse mundo ninguém presta, como vou me realizar profissionalmente num mundo desse?” Me agarrei naquele sentimento superficial que tinha pelo vizinho de cima e soltei: “Mãe, você está louca”.

Depois aos 18 anos veio outra ela, início da faculdade, tínhamos os mesmos sonhos, torcíamos e éramos fanáticas pelo mesmo time, gostávamos do mesmo tipo de música, trocávamos segredos e intimidades, não me via sem ela. Novamente minha mãe perguntou: “Filha, você não é apaixonada por ela?”. Dessa vez o filme na cabeça era outro, não era só meu pai, era as amigas de infância e seus discursos homofóbicos. E aquele medo: “Tô começando a construir minha vida e vou entrar numa enrascada dessa?” Mais uma vez pensei no veterano bonitinho de olhos verdes e veio um: “Mãe, você está louca”.

Mas as amigas continuaram vindo e o não saber como lidar com aquilo também. Me via cada vez mais sufocada num mundo que não me pertencia, que não ia me aceitar, principalmente por que eu não me aceitava. Me formei, juntei minhas coisas e fui embora. Na busca por me encontrar, fiz merda, muita merda, me meti em muita confusão. Tive muitos casos com homens que nunca pareciam me deixar feliz o suficiente, me fechei ao máximo, até que veio outra ela. Mas ela era diferente, especial, me apresentou um mundo que eu desconhecia, conheci mulheres lésbicas de todos os tipos, mulheres normais, lutadoras, reais, que pegaram minha mão e me mostraram “vem, tá tudo certo”. E me deixei levar, me deixei levar por ela que me beijou e me mostrou que existia um caminho para ser feliz e completa.

Realizada e plena, foi hora de sair do armário para minha mãe. A resposta dela? “Finalmente! ”


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