Saindo do armário | Chutando as portas aos 30 anos

Ilustração por @ninazambiassi

Para nós mesmas entendermos nossa sexualidade é sempre um processo. Para algumas mais breves, para outras doloridos, com ou sem rompimentos, tem quem não tenha apoio nenhum, mas um momento pelo qual passamos em que amadurecemos e nos compreendemos muito melhor.

Quando nos vemos prontas para compartilhar com as pessoas que estão ao nosso redor tudo o que descobrimos sobre nós às vezes não percebemos que elas também precisam dos seus processos, já que nossa sociedade rejeita tudo o que não está no padrão heteronormativo. Os processos delas também podem acontecer de várias formas e normalmente isso não implica mais ou menos amor.

CHUTANDO AS PORTAS AOS 30 ANOS

Sair do armário aos 30 com uma vida relativamente estável não foi tão difícil quanto é pra um monte de pessoas LGBT.  Eu não tive que lidar com ser expulsa de casa sem ter um lugar pra morar, não apanhei de pais intolerantes e violentos, não tive que achar jeitos de sobreviver quando o mundo te dá as costas, não pensei em me matar.

Eu sempre soube que me sentia diferente do modelo heterossexual aceito pela sociedade, mas quando era nova eu reprimia tudo isso.

Fui casada com um homem bom, meu amigo. Sentia falta de estar com uma mulher, mas o que mais eu poderia querer da vida?! Seria eu a ingrata que iria jogar fora uma vida estável e “feliz”?! Mas a vontade de me sentir inteira era mais forte. Meu casamento acabou por diversos motivos, mas o mais forte com certeza era a vontade de ser quem eu sou.

Meus pais nunca imaginaram que depois de terem vivido seus quase 70 teriam que aprender a respeitar a sexualidade da filha. Nunca imaginaram tendo que desconstruir uma vida de preconceitos em nome do amor e cuidado que sempre me dedicaram.

Foi isso que fizeram. Mas não tão fácil assim.

Meu irmão me proibiu de sair sozinha com a minha sobrinha de 15 anos, sobrinha que eu vi abrir os olhinhos pela primeira vez na sala de parto e que eu sempre amei e me preocupei, mesmo longe. Meu pai chorou por horas quando contei que estava namorando uma menina. Minha mãe fingiu não ligar, mas teve que começar a tomar ansiolíticos pra tentar lidar com a minha vida.

No início eu conversava e explicava, até que eu cansei. Estava exausta de mostrar o caminho, estava ansiosa pra viver e ser feliz.

“Mãe, lide com seu preconceito. Eu vou ali ser feliz e quando você se sentir pronta venha participar da minha vida e ser feliz comigo”

Ela precisou de 6 meses longe de mim pra entender. Quando o telefone tocou e ela me disse que não suportava mais não me ter por perto e que estava disposta a curar o próprio preconceito, eu renasci.

Minha namorada foi convidada pro Natal na minha casa naquele ano. <3

Desde então eles têm se superado a cada dia. Minha segunda namorada apenas conheceu meus pais abertos, gentis, receptivos e cheios de carinho com a pessoa que eu escolhi partilhar essa parte do meu caminho.

Nesse mês da visibilidade lésbica minha mãe me perguntou “Nós não fomos tão difíceis quanto muitos pais por aí né?” Não, mãe. Vocês estavam só sofrendo com os preconceitos enfiados nas suas cabeças durante uma vida toda, mas vocês me amam mais que isso.

A minha história não é daquelas que arrepiam de tão sofrida. Reconhecer meus privilégios é decisivo pra que eu tenha empatia por todas as pessoas que não tiveram a sorte que eu tive.


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