Saindo do armário | Bate, rebate e sai do armário

Ilustração por @ninazambiassi

Hoje continuamos nossa série com uma história que pode ter sido difícil e doída no começo, mas que traz também esperança de que com diálogo tudo pode melhorar. Tá, talvez nem tudo melhore e, principalmente, que não seja de uma hora para a outra, são as construções diárias que temos que trabalhar.

Essas histórias compartilhadas são para entendermos que não estamos sozinhas, tem mais milhares de mulheres passando pelos mesmos sentimentos. Cada história é absolutamente pessoal e intransferível e faz ou fará parte da história maior da jornada da vida de cada uma de nós.

BATE, REBATE E SAI DO ARMÁRIO

Nasci no interior do Paraná, numa família extremamente conservadora. Minha mãe catequista, meu pai um legítimo seguir de costumes. Me descobrir lésbica nesse cenário não foi algo muito agradável. Escondi durante anos. Porém, assim que terminei a faculdade, decidi que, se meus pais perguntassem novamente, finalmente contaria a verdade.

Um ano depois dessa decisão, estávamos reunidos na praia, e decidi levar minha namorada, como “amiga”, para passar o dia conosco. Enquanto ela jogava frescobol com a minha irmã, minha mãe e eu tomávamos sol lado a lado. O silêncio era grande, senti que a pergunta estava prestes a acontecer. E então chegou:

– Quero te fazer uma pergunta.

– Certo, e você está preparada pra ouvir a resposta? – respondi, respirando fundo.

– Como assim?!, ela se surpreendeu.

– Porque eu vou falar a verdade. E aí, o que você vai fazer?

– E aí vamos ter que tomar as providências devidas!, disse ela, já desconfortável, e perguntou – Você e a ela têm um caso?

– Sim, mãe. – falei, firme.

– Eu sabia!, ela respondeu, irritada. – Esses seus amigos gays!

Respondi que eu já era lésbica quando conheci meus amigos gays, e ela então levantou, visivelmente abatida, e chamou meu pai para voltarem ao apartamento. Olhei para minha então namorada com cara de “a casa caiu”, e fomos atrás. Minha mãe não almoçou, foi direto para o quarto. Meu pai não estava entendendo nada. Naquele mesmo dia, minha namorada e eu íamos para outra cidade passar o réveillon juntas. Decidi conversar com a minha mãe.

Foi uma conversa difícil, mas fundamental. Falei sobre como era difícil para mim, sobre como tive que esconder durante tantos anos, e sobre como estava feliz agora. E que gostaria de ver ela feliz também.  Choramos, nos abraçamos. Mas ela estava irredutível, inconformada. Uma semana depois, conversei com meu pai, que sentiu minha dor comigo e, apesar de ser um homem bastante conservador, foi amoroso e acolhedor.

Os anos seguintes não foram fáceis, mas de constante evolução. Hoje, 10 anos depois, com muitas histórias para contar, as coisas estão muito mais leves, e todos nós cada vez mais fortalecidos e aceitando uns aos outros da forma como somos, com nossas limitações e diferenças.


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