Saindo do Armário | Carta para minha mãe

Ilustração por @ninazambiassi

Juntamos aqui histórias de mulheres lésbicas e bissexuais que saíram do armário pra mostrar pra nós mesmas que esse é, sim, um momento marcante. Tenha sido leve ou pesado, com amor, abraços, silêncio ou lágrimas, reaproximações ou distanciamentos, essa é uma oportunidade de contar e ressignificar esses episódios. Afinal quem nunca passou por isso?

Seguindo nossa série de histórias de ‘saídas do armário’ e seguimos juntas porque juntas sempre seremos mais fortes. Às vezes quem a gente mais queria que nos desse força também tem o próprio processo para entender o que é não estar no padrão.

CARTA PARA MINHA MÃE

Oi, mãe.

Eu sei que você não pergunta muitas coisas, mas hoje eu queria responder algumas dessas suas perguntas ocultas.

Sabe, a gente escolhe qual profissão seguir, corte de cabelo, cor preferida, cerveja ou suco, netflix ou cinema, mas tem coisa que não é assim não.

Eu não escolhi sentir amor por uma pessoa do mesmo sexo que eu, mas eu demorei pra escolher te contar sobre isso, eu sei.

Escolhi sair do ninho primeiro, voar pra longe. Fuga, cansaço, mais fácil.

Sufoquei, não tive espaço.

Não tive problema com os amigos, um pouco comigo mesma em aceitar que eu era assim.

Assim: pessoa no singular, pronome pessoal, ser humano ímpar que já quis ser par como qualquer outro da espécie. Assim como você.

O meu “sair do armário” pra você foi denso.

Me entendi primeiro pra depois entender que nem todo mundo entenderia. Cê falou que tudo bem, pelo menos eu tava longe e ninguém ia comentar. Doeu um pouquinho, viu? Me coloquei em outros braços que já foram sinônimo de acolhida e segui. Hoje, não me sinto responsável por tentar mudar ninguém. Vivência, cultura, infância, tantos fatores pra eu tentar rebater e deixar a leveza que encontrei em mim com os anos.

Entendo o processo de cada um. Entendo o seu, mãe.

Eu sei que te distorceram a percepção do que é o amor e pecado. E hoje, me contento com o amor maternal, abrigo temporário.

Ainda assim, abrigo.

Tá tudo bem, mãe. Te sinto, mãe.


* Compartilha sua história com a gente também!
É só enviar por e-mail para coletivocassia@gmail.com.br com o título ‘Saindo do Armário’

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *