Mães e lésbicas – Relato 3

Como foi Sair do meu Armário,
Amanda Gonçalves, 29 anos, mulher negra lésbica e mãe.

Sair do armário não foi legal e posso dizer que ainda não está sendo.

Aos 27 anos eu decidi me livrar de um relacionamento abusivo onde saí apenas com as roupas, fogão(meu ganha pão desde sempre) e as camas das crianças. Aluguei uma casa, mobiliei e achei que tudo estava resolvido. Que engano.

Por mais que estivesse saindo de um relacionamento hétero, com o único homem da minha vida, “desconstruidão” e que sabia da minha sapatonice, eu achei que ia ser tudo okay.

Assim que ele me viu com uma garota ele surtou!

Foi então que tive que voltar pra casa da minha mãe com dois filhos, e tudo isso foi muito doloroso porque quando ela percebeu que eu não iria voltar pro meu casamento foi a vez da minha mãe surtar!
Ela já sabia da minha orientação sexual desde a minha adolescência mas ficou no dito pelo não dito…Então quando conheci uma garota e me apaixonei decidi assumir o relacionamento, porém quando fui contar pra minha mãe achando que ela já havia entendido (sendo que temos vários amigos gays, lésbicas, trans e ela parecia toda descolada), foi outro grande engano!

Primeiro várias manipulações com meus filhos e ameaças como: “vou tirar seus filhos de você, você vai traumatizá-los”, “você não pensa na vergonha que eles vão passar na escola”.

Foi quando eu e minha companheira decidimos contar pras crianças, eles já a conheciam mas até então ela era só minha amiga. Meu filho entendeu de boas mas minha filha não gostou, mas não pela minha namorada ser uma mulher, e sim por eu estar com alguém (filhos, não é mesmo?!).
Foi quando minha mãe, em uma festa de família, começou a discutir comigo e então apareceram as ofensas verdadeiras, com direito a tapa na cara e xingamentos, “sem vergonha, lésbica, nojenta, baixa”, falaram coisas horríveis mesmo, até que eu não me relacionava com a família porque eu tinha vergonha de mim mesma e que eles precisavam fazer algo pelas crianças.
Minha mãe não falava comigo morando na mesma casa e o resto da minha família também não falava comigo (todos moram um do lado do outro, na quadra inteira) por isso desenvolvi um método de viver lá sem viver lá.

Naquele momento eu ainda não conseguia me manter sozinha com as crianças, afinal meu ex-marido não pagava a pensão alimentícia porque desde que assumi pro mundo que era de mulher que eu gostava ele decidiu não honrar mais com as obrigações de pai. E as coisas só foram piorando, eram cada vez mais frequentes escândalos na porta da escola de balé do meu filho, com direito à xingamentos horríveis, “sapatão do caralho, agora você só usa  brinquedinhos, dedo, língua”, e isso vinha de um boy capoeirista e percussionista famoso da cidade, imaginem!

E quanto ao resto da sociedade, primeiro as “amigas” deixaram de falar comigo, depois professores escolares me dizendo que talvez fosse melhor pra mim e pras crianças se eu os deixasse.

Na primeira oportunidade que encontrei eu saí da casa da minha mãe (na verdade fui colocada pra fora à tapas), e cortei todo vínculo familiar, afastei meu ex-marido, e qualquer coisa a ser resolvida era por intermédio das minhas advogadas.

Terminei meu relacionamento, comecei a ter mais vida social e conhecer pessoas diferentes Me aproximei de mulheres negras fodas de uma militância intensa mas que julgavam vários preconceitos apenas por ser eu negra. E NÃO. Eu sou MÃE SOLTEIRA, NEGRA E LÉSBICA.

Conheci várias pessoas e tive vários crushes que no fundo eu percebia que sentiam uma mistura de “quero você porque é uma negra estilosa militante e isso tá em pauta”, e “não posso me aprofundar nesse relacionamento porque afinal você já tem sua vida, tem filhos e como agir se eles se apegarem a mim?”
Parece que eu era só uma mãe solteira perdida no universo sapatônico.

Fui somatizando tantas coisas e disso tudo veio a depressão, ansiedade, internamentos, medos e fui me fechando pra tudo do mundo.
Das pessoas negras que julgava amigas, mulheres fodas, tive apenas uma realmente do meu lado no momento mais delicado desse processo, em compensação tive outras aproximações inusitadas e inesperadas…

Hoje posso dizer que o momento o qual me encontro é o mais tranquilo e que estou conseguindo me entender e entender meu entorno. Acredito que várias “certezas” agora possam mudar, pois sei que ainda estou no meu processo e aprendendo a lidar melhor.
Ter conhecido o Coletivo Cássia me fez ver que têm pessoas acessíveis que eu posso trocar e aprender muito.

Eu não pude dizer muito dos meus filhos por orientação das minhas advogadas uma vez que ainda estou em processo de guarda. Mas pra escrever esse relato perguntei pra eles como foi quando eu contei sobre mim, foi isso que ouvi:

“Quando você contou eu não me importei com o fato de ser uma mulher a sua namorada e sim porque fiquei com medo de te perder, que me trocasse por outra pessoa, depois vi que não. As pessoas não deviam se meter na vida dos outros, cada um ama quem quiser”
Laura, 10 anos.

“E daí se você gosta de meninas? Eu também! Você vai ser sempre minha mãe, e eu te amo, e prefiro ser gay do que um homem que machuca mulheres”
Judá Hamashia, 9 anos.

 

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